Psicogente, 20 (38): pp. 353-367. Julio-Diciembre, 2017. Universidad Simón Bolívar. Barranquilla, Colombia. ISSN 0124-0137 EISSN 2027-212X
http://revistas.unisimon.edu.co/index.php/psicogente
* Este artigo é produto da pesquisa “O lugar do corpo na clínica psicanalítica contemporânea” (Bolsa Produtividade/CNPq).
1. Doutora em Teoria Psicanalítica (UFRJ). Professora da Graduação do Departamento de Psicologia da PUC-Rio e do Programa de Pós-Graduação em
Psicologia Clínica da PUC-Rio. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Email:mariaisabelfortes@gmail.com http://orcid.org/0000-0003-3662-
9575?lang=en
2. Doutora em Psicologia (PUCRS). Professora da Graduação e Pós-Graduação do Curso de Psicologia da Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul. Email:monicakm@pucrs.br http://orcid.org/0000-0001-9347-8537
Resumen
A partir de este artículo de reflexión, intentamos proponer una reflexión sobre el tema de la
automutilación a partir del análisis de algunas narraciones de blogs de adolescentes. Utilizando
el referencial del campo teórico-clínico del psicoanálisis proponemos que el cortarse puede ins-
cribirse en el registro de la compulsión, donde destacamos el aspecto del estremecimiento de la
alteridad, articulándolo a las nociones de “vivencia de indiferencia” y “acto-dolor”. En el artículo
exploramos la autodestructividad involucrada en el cortarse, y se presenta una reflexión sobre la
automutilación. Se observa en los testimonios citados la referencia al aislamiento y a la ausencia
de un destinatario a quien dirigir el dolor psíquico. La articulación teórica se centra en los as-
pectos del dolor solipsista, del desaliento y de una experiencia de extrañeza con el propio cuerpo
que llevan a un movimiento de descarga en el cuerpo, al no encontrar la ruta de la dimensión
elaborativa de la psique.
Abstract
From the present reflective article we aim to put some thought into self-mutilation theme from
the analysis of some narratives of the adolescent’s blogs in the light of the theoretical clinical field
of psychoanalysis, proposing that the act of cutting can be inscribed in the register of compul-
sion in which we highlight the aspect of the quivering of otherness, articulating it to the notions
of “experiencing indifference” and “pain-act”. It is also explored the self–aggression involved in
these cuts and is presented a reflection concerning a way of cutting himself. It is observed in those
testimonies, the reference to the isolation and the absence of a receiver to whom is possible to
direct psychic pain. The theoretical articulation focuses on the solipsistic aspects of pain, discour-
agement and an experience of oddness with his own body, which lead to a discharge movement
in the body, since the way to the psyche´s elaborative dimension is not found.
Palabras clave:
Automutilación, Psicoanálisis,
Alteridad, Vivencia de indiferencia.
Key words:
Self-Mutilation, Psychoanalysis,
Otherness, Experience of indifference.
Referencia de este artículo (APA):
Fortes, I. & Kother, M. (2017). Automutilação na adolescência - rasuras na experiência de alteridade. Psicogente, 20(38), 353-367.
http://doi.org/10.17081/psico.20.38.2556
Automutilação na adolescência - rasuras na experiência de alteridade*
Self-mutilation in adolescence - scratches in the otherness experience
Recibido: 10 de enero de 2017/Aceptado: 2 de mayo de 2017
http://doi.org/10.17081/psico.20.38.2556
Isabel Fortes
1
, Mônica Medeiros Kother Macedo
2
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil
resultAdo de reflexión
354
AutomutilAção nA AdolescênciA - rAsurAs nA experiênciA de AlteridAde
Psicogente, 20 (38): pp. 353-367. Julio-Diciembre, 2017. Universidad Simón Bolívar. Barranquilla, Colombia. ISSN 0124-0137 EISSN 2027-212X
http://revistas.unisimon.edu.co/index.php/psicogente
Introdução
No presente artigo, pretendemos desenvolver al-
guns aspectos que consideramos relevantes acerca do
comportamento da automutilação, principalmente no
que se refere à relação entre o sujeito e o outro. Na mo-
dalidade de um artigo de reflexão teórica, propomos
examinar este tema a partir da análise de algumas narra-
tivas de blogs de adolescentes. Este comportamento tem
ganhado maior visibilidade na cena da clínica psicanalí-
tica nas últimas décadas. Vários estudos (Scaramozzino,
2004; Gauthier, 2007; Jaffré, 2008) alertam para o fato
de que os comportamentos de automutilação, que se ca-
racterizam por promover cortes superficiais na própria
pele com objetos afiados, tiveram um aumento consi-
derável nos últimos 30 anos. Tais atos costumam surgir
na adolescência, podendo se estender por um período
curto ou se prolongar pela vida adulta.
Em pesquisa anterior intitulada “A presença do
corpo no campo teórico-clínico psicanalítico atual”, in-
vestigamos a dimensão do corpo no campo teórico-clíni-
co da psicanálise, buscando analisar os efeitos na clínica
psicanalítica, da presença da dimensão corpórea na cons-
tituição da subjetividade contemporânea. Tais efeitos
têm sido avaliados por pesquisadores que se debruçam
sobre a sintomatologia psicanalítica contemporânea, as-
severando a sua dimensão corpórea como singular via
de expressão de padecimentos psíquicos (Assoun, 2009;
Birman, 2011; Costa, 2005; Fernandes, 2003; Fernan-
des, 2011; Winograd & Mendes, 2009; Queiroz, 2008).
A discussão acerca da automutilação se insere, a
nosso ver, neste campo de problematizações. Na pesqui-
sa acima citada, buscamos analisar o estatuto do corpo
na sintomatologia contemporânea, destacando marca-
damente as operações psíquicas que estão em jogo em
alguns quadros clínicos que se apresentam com maior
proeminência na atualidade, nomeadamente nas síndro-
mes da anorexia mental (Fortes, 2007; 2008; 2010) e da
dor física crônica (Fortes, Winograd & Medeiros, 2015).
Tais antecedentes investigativos servem de parâmetros
que sustentam o desenvolvimento do presente artigo. A
automutilação é um dos enquadres pelo qual buscamos
examinar a sintomatologia psicanalítica contemporânea,
entendendo-a como um quadro clínico que encena ques-
tões fundamentais para a análise do eixo da alteridade e
suas repercussões no mal-estar da atualidade, mais espe-
cialmente relativos à adolescência.
Resultados
Encontramos no blog “Mon combat au quotidien:
l´automutilation” (2012) testemunhos de jovens que se
automutilam e que permitem constatar que não há re-
lação deste comportamento com o suicídio. Os cortes
autoinflingidos envolvem certa relação entre o corpo
próprio e a expressão do sofrimento, e não a intenção
de se matar. A autoagressividade que estes cortes envol-
vem circunscreve-se a uma esfera íntima e facilmente
acobertada pelo adolescente (Gauthier, 2007), pois são
quase sempre realizados em uma parte do corpo menos
monitorada pelos pais ou pela família. Geralmente o
adolescente não demonstra de forma manifesta inquie-
tação ou angústia com o fato de se automutilar, sendo o
alarme acionado quando um adulto descobre e se preo-
cupa com o fato.
Outro aspecto relevante nestes relatos é o fato de
o adolescente não fazer qualquer referência à dor que
sente na hora de se cortar. Ao contrário, referem-se, na
sua maioria, ao caráter apaziguante de tal ato. Estes atos
são realizados pelos jovens em momentos de uma insu-
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portável tensão interna, com a qual não sabem como
lidar. Trata-se, portanto, de uma dor que não encontra
expressão pela via das palavras.
Diante desta impossibilidade de colocar em pa-
lavras a própria dor, o ato automutilatório se apresenta
como um recurso apaziguante. Observamos tal dinâmi-
ca nos testemunhos como o de uma adolescente que
escreve no referido blog “Mon combat au quotidien: l´au-
tomutilation” (2012):
Eu acho que a mutilação é o pior momento da vida
da gente. Porque a gente não sabe mais mesmo o que
fazer, a gente está perdido e tem que pedir socorro!
Acontece que as pessoas não estão nem aí. Pelo menos
a gente acha isto! Imagina que você tem gente, tipo,
gente sua, ao seu lado, mesmo que você pense que está
só, estas pessoas estão aí e te apoiam realmente! Eu sei
o que é a automutilação, eu me trancava todas as noi-
tes, apagava a luz, ficava no breu. Eu pegava tudo que
achava (faca, tesoura, navalha ou compasso). E me cor-
tava. Eu comecei por cortes fininhos, depois foi fican-
do mais profundo e mais perigoso. Eu me sentia tão
sozinha, eu tinha necessidade de falar com uma pessoa
que me compreendesse, mas não tinha ninguém, eu
não via ninguém! Eu ainda me mutilo hoje em dia,
porque fiquei viciada nisto
*
.
No dizer dessa adolescente, podemos destacar o
aspecto de isolamento, de inexistência de um interlo-
cutor com quem compartilhar a dor. O sentimento de
solidão é intenso, vindo os testemunhos na rede ocupar
a função do outro inexistente: “mesmo que você pense que
* Monster, L. (2012). Mon combat au quotidien: l’automutilation [Arqui-
vo de vídeo]. Recuperado de http://youvideoz.com/watch?v=ahW_Rn-
RaSH0
está só, estas pessoas estão aí e te apoiam realmente”. Obser-
vamos também no relato o caráter compulsivo da escari-
ficação. O vício, o fato de não conseguir parar de se cor-
tar é um traço presente também em vários outros relatos
do blog, como pode ser constatado nos trechos abaixo:
Eu também estou na automutilação já há um ano e
meio e não consigo parar porque eu souviciada nes-
te sofrimento que me devora todo dia, eu não seguro
mais essa necessidade de sofrer.
Esta doença é pior do que uma droga, eu sei porque
eu vivo isso. Mas o problema é que mesmo se falarmos
com alguém não há muita solução, porque no fundo a
gente não quer parar.
Observamos, nas narrativas citadas acima, a refe-
rência a incidências de acontecimentos penosos antece-
dendo o início dos cortes: um irmão menor que mor-
reu, um namoro que terminou – acontecimentos que
produziram uma dor psíquica insuportável, com a qual
o jovem não conseguiu lidar, associada ao forte senti-
mento de solidão por não se ter com quem partilhar esta
dor. Ante tamanha dor, a mutilação surge, como já dito,
como um recurso –um recurso desesperado, certamen-
te– para arrefecer a angústia. Uma adolescente escreve
no blog: “Quando eu termino de me cortar, a angústia depois
de um tempo volta, mas vale a pena, pelo sentimento de alívio,
nem que seja somente por 5 minutos” (Monster, 2012).
Em outro testemunho, lemos que, “Se escarifican-
do, as pessoas não se punem, mas deixam ‘escapar’ sua dor
moral” (Monster, 2012).
Neste sentido, podemos observar que a dor cor-
poral é vista na escrita dessas jovens como um substituto
da dor moral, isto é, como uma forma presentificada via
356
cortes no corpo que atesta a impossibilidade de sentir a
dor da alma. Busca-se assim, paradoxalmente, apaziguar
a dor psíquica insuportável por meio do ato de infligir-se
uma dor física.
Com efeito, é interessante assinalar que, já no
início do século XX, havia, conforme atesta a literatura
psiquiátrica e psicológica da época, a percepção de que
a automutilação não seria uma tentativa de suicídio ou
autodestruição, mas sim a compreensão de que os au-
tomutiladores estavam, na verdade, buscando um meio
de se autocurar e se autopreservar (Araújo, Scheinkman,
Carvalho, Viana, 2016).
Portanto, pela intensidade do sofrimento moral,
a dor infligida diretamente no corpo é concebida como
uma dor não apenas mais tolerável, mas como um modo
de apaziguar a insuportável dor moral. Em investigação
anterior sobre as modalidades da dor que acossam o psi-
quismo humano, destacamos que frequentemente o sur-
gimento de uma dor física pode substituir e mesmo fazer
desaparecer uma dor psíquica (Fortes, 2012a).
A tentativa de substituição de uma dor por ou-
tra se faz na medida em que se constata a inegável difi-
culdade de elaboração psíquica de um evento doloroso.
Segundo Le Breton (2006), em seu artigo “Scarifications
adolescentes”, a escarificação ilustra uma espécie de jogo
simbólico no domínio da dor, opondo a dor ao sofri-
mento, a ferida física ao dilaceramento da alma. Trata-
-se, nas palavras do autor, “de fazer-se um mal para obter
menos mal” (p.5), trazendo para o centro da cena um
modo de se infligir dor que visa, para um sujeito que
se encontra em estado de vertigem e devastação psíqui-
ca, a construção de um sentimento de existir. Le Breton
(2006) cita um exemplo deste movimento de substitui-
ção de uma modalidade de dor por outra:
Muriel, 16 anos na ocasião, dá com eloquência o seu
testemunho. Apaixonada por um rapaz toxicômano e
traficante, ela acaba de ter a notícia de que ele foi no-
vamente detido. Ela está sozinha em um jardim. Seu
olhar se fixa em um pedaço de vidro. Ela grava sobre
sua pele as iniciais de seu parceiro e expressa de manei-
ra exemplar a força de atração do talho na pele em um
momento de desalento: ‘Você está de tal forma infeliz
internamente, é a ferida do amor. Você está tão infeliz
no teu coração, e aí você se faz um mal para obter uma
dor corporal mais forte, de modo a não mais sentir a
dor do coração (Le Breton, 2006, p.6).
Discussão
A partir dos relatos coletados no referido Blog,
gostaríamos, agora, de empreender uma discussão teóri-
ca acerca dos vários elementos psíquicos que se encon-
tram em jogo na compreensão do ato escarificatório na
adolescência. Em relação aos testemunhos colhidos no
referido blog, buscamos, no presente artigo, dar prin-
cipalmente ênfase a um aspecto que consideramos de
grande relevância não apenas para a compreensão da au-
tomutilação, mas para a análise dos sintomas contempo-
râneos de modo geral. Constatamos que várias jovens,
nestes testemunhos virtuais, apontam a ausência de um
destinatário para a sua dor, ou seja, verifica-se a ausência
de um interlocutor com quem desabafar: “Peço socorro,
mas não há ninguém ali” (Monster, 2012).
A reflexão sobre a precariedade do campo da alte-
ridade, sobre a ausência de um outro que possa perceber
o que ocorre por meio da prática da automutilação, é
fundamental para entendermos este modo de dor que
se configura na descarga direta de intensidades psíqui-
cas na dimensão do corpo. É sobre este estreitamento
da dimensão da alteridade que pretendemos refletir no
AutomutilAção nA AdolescênciA - rAsurAs nA experiênciA de AlteridAde
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presente trabalho. Cabe ressaltar que não somente no
quadro da automutilação se revela a quebra da experi-
ência da alteridade. Segundo Birman (1999), o excesso
de narcisismo e o arrefecimento da relação com o outro
constitui-se como marca crucial nas modalidades de pa-
decimento psíquico contemporâneo.
Com efeito, a análise das narrativas deste blog re-
velou importante menção a uma ausência ali onde se es-
perava a presença do outro. O que isso pode nos ensinar
sobre o funcionamento da automutilação? Qual a rela-
ção deste traço de inexistência do outro com um modo
de sofrer que se configura sobre o espaço corpóreo? Des-
ta forma, são essas questões e seus desdobramentos que
constituem o fio condutor das nossas indagações.
Ao analisarmos as modalidades de expressão da
dor psíquica no mundo contemporâneo, percebemos
como um de seus traços marcantes, a tentativa de nega-
ção desta experiência tanto para si mesmo como para os
outros. Se, por um lado, não há um outro para receber
a mensagem da dor, por outro há uma dificuldade do
próprio sujeito de admitir para os outros que está triste,
sofrendo ou angustiado. No entanto, a ausência do ou-
tro reforça a impossibilidade de encontrar palavras para
a dor, já que a ressonância daquele é condição necessária
para que o sofrimento psíquico se constitua como tal.
Como assinala Schneider (2002) em “La souffrance
psychique”, a capacidade de sentir e representar a própria
dor tem como condição não somente um contato do
sujeito consigo mesmo, mas, necessariamente, a relação
com o outro. O sofrimento psíquico deve ser endereça-
do ao outro, o qual oferecerá um espaço de ressonância
no qual o sujeito pode legitimar a sua dor. Se a dor não
ressoa em ninguém, ela se mantém no próprio sujeito
e é redirecionada para o corpo próprio (Birman, 2003;
Schneider, 2002). Segundo a hipótese desenvolvida no
presente artigo, uma forma privilegiada de redireciona-
mento da dor para o corpo próprio entre os adolescen-
tes de hoje é a automutilação.
Como destino pulsional, a volta da pulsão em
retorno a si mesmo expressa aqui a impossibilidade de
enunciação de intensidades e o predomínio automutila-
tório de si mesmo. Neste contexto, o ato contra si mes-
mo denuncia a rasura nos destinos dos investimentos
psíquicos.
Nesta mesma linha de investigação, Birman
(2012), em seu livro O sujeito na contemporaneidade, dife-
rencia sofrimento e dor, indicando essa como um traço
característico dos padecimentos atuais e inserindo-a em
um espaço de ausência da mediação do outro. Com efei-
to, uma marca pregnante dos padecimentos atuais é o
fato de se expressarem por meio da dor, a expensas da
experiência de sofrimento.
Apesar de serem frequentemente vistas como si-
nônimos, essas duas experiências –a dor e o sofrimen-
to– podem e devem a partir de suas especificidades, ser
vistas como distintas. Enquanto na dor o sujeito fica en-
tregue ao excesso pulsional que o acossa, no sofrimento
há a presença do outro, que pode oferecer a função de
anteparo contra o excesso (Birman, 2012). Tais conside-
rações remetem a concepções freudianas desenvolvidas
em 1895, no texto “Projeto para uma Psicologia Científica”.
Nesse texto, Freud (1895/1976) apresenta, clara-
mente, a fundamental necessidade da presença do outro
no processo de constituição do sujeito psíquico. A partir
da concepção de um desamparo inerente a condição hu-
mana, tem-se no texto de 1895, a clara referência à impli-
cação dos movimentos alternados de ausência e presen-
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ça do outro primordial para a instauração de recursos de
enfrentamento e metabolização da dor, ou seja, dasin-
tensidades psíquicas experimentadas. Estes recursos são
intrínsecos à singular forma do sujeito administrar suas
vicissitudes pulsionais.
Nesta direção, além de abordar as diferenças
entre dor e sofrimento, Birman (2012) apresenta dois
outros traços psíquicos que caracterizam o registro do
sujeito nos sofrimentos contemporâneos, quais sejam,
o desalento e o espaço. O primeiro se diferenciaria da
experiência subjetiva do desamparo, noção desenvolvi-
da por Freud em vários de seus ensaios além do texto
de 1895, e o segundo se materializaria nos dias de hoje
às custas da dimensão do tempo. Somos hoje, segundo
Birman (2012), mais inscritos subjetivamente nas esferas
espaciais do que nas ordens temporais ou históricas.
A experiência do desalento, nesse contexto, é mais
radical do que a do desamparo, pois lança o sujeito no
abismo do solipsismo, da solidão e do vazio afetivo, sem
qualquer oportunidade de interlocução, sendo-lhe sub-
traída a possibilidade de fazer apelo ao outro. Enquanto
o desamparo permite o exercício do apelo, de demandar
algo ao outro e, pela via da demanda, estabelecer trocas
afetivas e produzir sentidos para a vida, o desalento é
marcado pela aridez da presença do outro como suporte
da vida afetiva (Birman, 2012).
Sobre esta condição Pontalis (2005) observa que
a dor acontece quando não há mais o suporte, quan-
do não há mediação possível. A dor surge quando rom-
pem os dispositivos de proteção do psiquismo, quando
“ocheio demais cria um vazio” (Pontalis, 2005, p.268). A
dor, segundo o autor, é efeito de uma implosão: ocorre
como um fenômeno “indubitável” de ruptura de prote-
ção, de descarga no interior do corpo, que lhe dá a espe-
cificidade de ser “uma experiência irredutível” (p.266).
O irredutível da dor é o fato de ela se descarregar de
maneira direta. No caso da automutilação, trata-se da
descarga direta de uma tensão insuportável na ordem do
corpo, na medida em que não se encontrou uma via pos-
sível para que a dor pudesse ser traduzida em palavras.
É este caráter de descarga que faz com que muitos
autores (Vidal, 1995; Pontalis, 2005; Nicolau, 2008; For-
tes, Winograd & Medeiros, 2015) façam uma correlação
direta entre a dor e o grito. Pontalis (2005) salienta que,
por não ser comunicável, por ser “só para si”, a dor só
teria a possibilidade de se expressar por uma alternância
entre o silêncio e o grito:
A golpes de pontadas, por vibrações e ondas sucessi-
vas, ela vai progressivamente ocupando todo o terreno
até modificar toda a sua geografia e revelar outra desco-
nhecida. Tenho angústia, sou dor. (...) a dor só pode ser
gritada –mas este grito não a aplaca em nada– para cair
mais adiante no silêncio onde ela se confunde com o
ser. O sujeito ele mesmo não se comunica com sua
dor: alterna entre o silêncio e o grito (Pontalis, 2005,
p.271).
A ideia de Pontalis (2005) de que a dor mantém
proximidade com o silêncio é corroborada por Gauthier
(2007), que denomina a automutilação como uma dor
silenciosa. Sobre este modo de expressão que não se apoia
nas palavras, Douville (2004) salienta que é raro quais-
quer associações verbais que possam trazer um significa-
do ao ato automutilatório. O que se observa frequente-
mente são racionalizações, movimentos de negação e de
denegação que podem ser caracterizados como manifes-
tações arcaicas de defesa, formas psíquicas de resposta
do sujeito a uma intrusão do real. Por isso mesmo, em
seu trabalho clínico com crianças e adolescentes que se
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automutilam, o autor constata que pouco ou nenhum
efeito terá a técnica da interpretação, já que esta tem
como condição efetuar-se a partir de um dizer ou de uma
enunciação, e não sobre um comportamento.
Se não estamos diante do dizer e da enunciação,
qual seria o estatuto nosográfico da automutilação?
Douville (2004) propõe pensá-la –em consonância com
Lagache (1949) em “De la psychanalyse à l’analyse de la
conduite”– como sendo da ordem da conduta, isto é,
de comportamentos que revelam algo da “pessoa”, cuja
consistência tem como base “assegurar-se de que habita
um corpo, que será ao mesmo tempo lugar de seus sig-
nos e passaporte de seu ser” (Douville, 2004, p.8). Cabe,
aqui, lembrar que o processo de construção do corpo
próprio se dá a partir de uma construção psíquica que
leva em conta o arranjo das identificações a partir da
constituição dos fantasmas primordiais do sujeito, que
vão aos poucos permitindo que este habite o corpo pró-
prio. Nos casos clínicos em que o corpo é o cenário de
graves sintomas observamos um curto-circuito na edifi-
cação da imagem inconsciente do corpo (Dolto, 1992;
Fédida, 1971; Fortes, 2012b). Nesta direção, encontra-se
destacada, em estudo realizado por Guzmán, Arellano
e Escalante (2012) sobre adolescentes mexicanos que se
automutilam, a associação entre o maltrato dirigido ao
corpo e o “des-enlace dos elementos que constituem sua
história” (p.75). Tal consideração permite aos autores
afirmar que, no ato de mutilar-se, o sujeito “tenta domi-
nar o mais íntimo e frágil que o constitui: seu desejo e
seu corpo” (p.75).
A automutilação pode ser vista, segundo Douville
(2004), como uma tentativa de se encontrar algum con-
torno psíquico na materialidade do corpo próprio, dian-
te de um sentimento de descontinuidade de si mesmo.
Para o autor, tal gesto exerce uma expulsão do excesso
de excitação que acossa o sujeito. No entanto, esta ex-
pulsão não é uma simples operação mental, mas supõe,
também, uma cinesia, ou seja, o movimento e a motri-
cidade. A automutilação seria o recurso de um sujeito
em estado de sideração, acometido de forte angústia de
despersonalização e do consequente distanciamento do
próprio corpo. Este seria o modelo de um corpo estran-
geiro, quase informe, e a automutilação caracterizaria o
“retorno ao gesto fundador de uma continuidade do vi-
vido corporal” (Douville, 2004, p.15).
Com efeito, a automutilação indicaria, como dito
anteriormente, o registro psíquico do informe do corpo.
Para Douville (2004), a clínica do adolescente automuti-
lador “insiste em que levemos em conta as potências do
informe do corporal” (p.12), apostando em um sujeito
em estado de “in-corporação” a partir dos gestos e frases
que vêm do outro – “reduzido ao organismo, o sujeito é
um resto informe” (p.12). Portanto, vemos que o infor-
me corporal se aproxima de um modelo de corpo que se
tornou estrangeiro ao próprio sujeito, sendo a automuti-
lação uma tentativa desesperada de se entrar em contato
com o corpo próprio.
A hipótese que aqui formulamos –qual seja enten-
der o ato automutilatório como um efeito da precária
interação do sujeito com o outro– é desenvolvida por
Douville (2004) a partir das primeiras relações que o su-
jeito estabelece com o mundo, alinhando-se ao descrito
por Freud (1895/1976), em “Projeto para uma Psicologia
Científica”, como “o complexo do semelhante”. Se, por
um lado, dependemos do outro como sendo o objeto
de proteção e de identificação que nos permitirá o sen-
timento de unidade e integração imaginária, por outro
lado, este mesmo outro pode ser fonte de hostilidade e
ameaça de abandono e desproteção.
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A parte dos investimentos que não se liga a esta
relação narcísica e identificatória com o outro retorna
de maneira dilacerante para a economia libidinal, pro-
vocando um abalo do narcisismo do eu. Aqui, salienta
Douville (2004): “é então o corpo ele mesmo que é atin-
gido pela turbulência dos remanejamentos narcísicos e
que, longe de se equivaler à imagem ideal do semelhante,
torna-se este peso de real que insiste” (p.15). Daí advém,
segundo o autor, uma angústia de despersonalização que
leva ao encontro “com a matéria bruta do corporal, com
sua substância mesma” (Douville, 2004, p.16).
Ora, o que se entrevê no comportamento automu-
tilatório é, arriscamos dizer, uma tentativa de se entrar
em contato com esta matéria bruta para dela se apro-
priar, ou seja, para tentar acessar o sentimento da “carne
viva” que possa conduzir, em um segundo tempo, a certa
assunção do corpo como unidade e não somente como
corpo informe. Os cortes oferecem a via da cinesia, da
sensação de propriedade de um corpo, de corporeidade
e de contenção.
Tal perspectiva sobre o ato automutilatório é tam-
bém desenvolvida por Le Breton (2006), segundo quem
estas adolescentes, ao se infligirem a dor, retomam o
controle de um afeto destrutivo que lhes atravessa, bus-
cando um modo de domínio sobre uma situação que
lhes escapa totalmente ao controle. O ataque ao próprio
corpo é geralmente precedido de um sentimento de de-
sespero e de desorientação, “como uma forma de hemor-
ragia de sofrimento que destrói os limites de si” (p.2).
O corte vem, assim, segundo o autor como tentativa de
conferir uma restauração brutal das fronteiras perdidas
do corpo, como forma de diminuir o sentimento de ver-
tigem e promover a sensação de vida. A concepção de
vertigem alude a esta impossibilidade de domínio sobre
as intensidades experimentadas, sendo o ato automuti-
latório tentativa de alguma ligação do desespero expe-
rimentado. Além disso, podemos pensar que se trata,
também, de esboçar uma tentativa de resposta ali onde
há o desencontro com o outro, ali onde o chamado ao
outro não encontra uma resposta (Hachet, 2015).
Le Breton (2006) descreve o caso de uma paciente
que, com loquacidade, demonstra o imperativo de não
se entregar ao sofrimento, mas, sim, de combatê-lo. Ela
explica que se corta com uma lâmina de barbear, mas
que interrompe o ato quando a dor começa a ficar in-
tensa, esforçando-se por se manter em uma linha que,
apesar de tênue, a faz sentir-se enfim “viva”. Afirma o
autor que “as marcas corporais são alvas identitários, de
forma a inscrever os limites através da pele, e não so-
mente como metáforas” (p.2). Assim, a pesquisa de Le
Breton (2006) permite-nos compreender que o alvo da
automutilação não é o sofrimento, mas poder alcançar,
por meio deste ato, certo sentimento de existir. O ataque
ao corpo, segundo o autor, se aproxima da compreensão
que podemos ter sobre as condutas de risco, precedido
de um sentimento de turbilhão, um modo de hemorra-
gia do sofrimento que rompe com os limites de si. Há
uma lógica interna neste ato que indica uma busca de
apaziguamento, e não de destruição pessoal:
“O corte no corpo é uma forma de tentar barrar
o sentimento de colapso. O choque de realidade que ele
induz, a dor consentida, o sangue que corre religa os
fragmentos esparsos de si mesmo. Permite que haja uma
reintegração e alimenta o sentimento de se estar viva, de
restabelecimento das fronteiras de si” (Le Breton, 2006,
p.5).
Uma jovem de 15 anos contava, enquanto se en-
contrava em processo psicoterápico com uma das auto-
ras do presente artigo, que cortava o braço com cacos
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de vidro e nele escrevia a palavra “Viva”. Narrava a que
a mutilação de si mesma era uma forma de “se” sentir,
uma forma de sair da sensação permanente de aneste-
siamento. Sentir a dor a fazia ao mesmo tempo sentir-se
viva, retirando-a do amortecimento vital e da sensação
de estar morta que a acompanhavam. Entendemos,
aqui, que a cinesia provocada pelos cortes pode trazer
novamente a sensação e a intensidade perdidas, fazendo,
da matéria bruta do corpo, “carne viva”. De qualquer
forma, seja na busca de recursos frente a sensação de
vertigem como descreve Le Breton (2006), ou nas nome-
ações de tentativas para sentir-se “viva” e não mais morta
ou anestesiada, o ato mutilatório contempla importante
fracasso da palavra em sua potencialidade de conexão,
captura e expressão das intensidades experimentadas.
Sabemos que a adolescência inexoravelmente
confronta o sujeito a uma variável gama de sensações.
Uma vez que os comportamentos de se cortar ocorrem,
em sua maioria, no período da adolescência, pode-se
constatar a relação destes atos com o fato de ser, nesta
época da vida, que o sujeito passará necessariamente por
necessários remanejamentos narcísicos, os quais o con-
duzirão a uma redefinição do campo das identificações,
as quais atravessam indubitavelmente o sentimento de
unidade corporal (Rassial, 1999). Nesse sentido, para
Cardoso (2001) “o remanejamento das identificações na
adolescência abala intensamente as bases narcísicas do
psiquismo do sujeito, em função dentre outros aspectos,
do desinvestimento das ligações com os objetos da in-
fância” (p.48). Tal condição, segundo a autora, apresen-
ta contornos singulares quando se dá em situações nas
quais opera “um curto circuito dos processos psíquicos
mais elaborados” (p.50).
Como já mencionado, segundo Freud
(1895/1976) a parte do complexo do semelhante que
não pôde ser capturada pela relação narcísica e identi-
ficatória com o outro retorna para o corpo como uma
intrusão do real. É neste contexto que a automutilação
pode ser uma tentativa de resposta a esta intrusão: fa-
bricando, nas palavras de Douville, “um gesto polêmico
com o informe corporal (…) como um modo de resposta
posterior ao trauma pubertário” (Douville, 2004, p.16).
Assim, o abandono da posição infantil demanda-
do pelo processo adolescente significa a perda do valor
da imagem corporal do narcisismo dos pais para o inves-
timento em seu narcisismo tomando o seu corpo pró-
prio como objeto de investimento. A construção de no-
vos modelos identificatórios na adolescência vai reque-
rer que o sujeito possa abrir mão da onipotência infantil
para construir um novo caminho para si. No entanto,
isso só tem como ocorrer quando as figuras parentais
investiram a criança a partir de seu próprio narcisismo,
movimento condensado naquilo que Freud (1914/1974)
caracteriza, em “Introdução ao narcisismo”, como sendo
a figura de “sua majestade, o bebê”.
Neste eixo de raciocínio, recorremos à ideia de
vivência de indiferença e de ato-dor (Moraes & Macedo,
2011). Reconhecendo justamente a complexidade do
processo de constituição subjetiva em certos pacientes,
as autoras exploram os danosos efeitos da experiência
de indiferença. Cabe ressaltar que, segundo as autoras,
a concepção de indiferença a qual recorrem remete a
“uma qualidade de violência imposta à criança por parte
de um adulto em um tempo primordial de estruturação
do psiquismo” (p.42).
A vivência de indiferença resulta, portanto, da in-
capacidade do objeto primordial de “dirigir um olhar
amoroso para a criança que permita percebê-la, apazi-
guá-la, e investi-la libidinalmente” (Moraes & Macedo,
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2011, p.44). Desta forma, as autoras alertam sobre a es-
pecificidade que tal noção contempla ao afirmarem que:
Cabe destacar que não se trata do desdém da oferta
por parte do adulto ao outro (a criança), mas, sim, de
uma marca de não reconhecimento daquilo que é mais
próprio da singularidade desse outro: seu existir. Na in-
diferença predomina dramaticamente o não reconhe-
cimento da diferença que a existência do outro aporta
a esse encontro inicial e que se reproduz na apropria-
ção do sentido de existência da criança (Moraes & Ma-
cedo, 2011, p.43).
Logo, a vivência de indiferença alude a esse desen-
contro primordial, do qual resulta o predomínio de um
desconhecimento a respeito do si mesmo. Como efeito,
desse encontro traumático instala-se uma matriz repro-
dutiva das intensidades atordoantes experienciadas pelo
sujeito, a matriz de indiferença com o si mesmo e com o
outro (Moraes & Macedo, 2011).
Nesta direção, o recurso ao ato faz-se presente, nos
casos de automutilação, como uma modalidade possível
de expressão das intensidades psíquicas sendo denomi-
nado como ato-dor. No ato-dor há o predomínio de um
movimento de descarga a qual indica a dimensão não
elaborativa das intensidades psíquicas. No prejuízo ao
si mesmo, cabe ao ato-dor a expressão do traumático e a
denúncia da precariedade instaurada no campo alteritá-
rio. A dimensão extrema do ato na modalidade de ação
precipitada pela ruptura e desmoronamento de toda a
mediação simbólica é, para Mayer (2001), a evidência
“da desesperança, da entrega, da rendição” (p.94). Tal
proposição alinha-se ao argumento referido por Birman
(2012) ao acentuar a precariedade enunciativa e, portan-
to, o estremecimento na dimensão alteritária observado
na experiência de dor e na condição de desalento.
A matriz de indiferença, instaurada na vivência
de indiferença, permite-nos considerar que a automuti-
lação dá a conhecer, no ataque ao próprio corpo, a cruel
dimensão da sensação de inexistência do si mesmo para
o outro. Esta intensidade se faz presente no testemunho
de uma das jovens citadas no referido blog, quando de-
nuncia que a ausência de um outro associa-se ao que ela
sente, ao que necessita e ao que vê, demonstrando, por sua
fala, a rasura na experiência do si mesmo:Eu me sentia
tão sozinha, eu tinha necessidade de falar com uma pessoa
que me compreendesse, mas não tinha ninguém, eu não via
ninguém!” (Monster, 2012).
Dessa maneira, ressaltamos aqui a precariedade
da dimensão alteritária nestas condições clínicas. A esca-
rificação pode, então, ser entendida como uma resposta
que advém da busca de um contorno que sirva como
registro da própria existência. Face à não constituição
do envelope corporal narcísico (Anzieu, 1989) que da-
ria uma sustentação à imagem unificada de si mesmo,
a fragmentação corporal é uma tentativa de encontrar
algum contorno, ao criar um “envelope de dor” (Le Bre-
ton, 2006). Assim, o ataque a si na escarificação da pele
oferece uma espécie de materialidade corpórea que, se
não tem como ser narcísica e imaginária, forja uma ope-
ração subjetiva que se dá no real do corpo.
Nesta mesma direção de investigação teórica, des-
tacamos, ao analisar a presença da automutilação como
um sintoma contemporâneo, a seguinte indagação: que
representação de corpo está presente neste modo sin-
tomático de expressão da dor psíquica? Ou, em outras
palavras, podemos indagar se a automutilação seria um
modo de resposta sintomática do sujeito face a fragmen-
tação do corpo característica da representação de corpo
na contemporaneidade (Fortes, 2013).
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Cabe, neste sentido, apresentarmos a concep-
ção de corpo que se fez presente a partir do advento da
modernidade e a configuração que passou a vigorar na
contemporaneidade. Foucault (1980/1998) em –“O nas-
cimento da clínica” mostra como a inserção do modelo
clínico no campo dos saberes teve origem na dissecação
dos cadáveres– foi este o solo que permitiu o surgimento
da percepção da anatomia clínica e da concepção da clí-
nica como um saber sobre o particular. Isto é, um saber
sobre a singularidade só foi possível com o nascimento
da clínica moderna.
Ora, a psicanálise é herdeira da medicina moder-
na, constituiu-se como um saber clínico no campo dos
saberes, mas, ao mesmo tempo, subverteu este campo
ao inserir no corpo a dimensão do desejo que a medici-
na moderna dele subtraíra. A psicanálise não se reporta
à anatomia clínica, mas a uma anatomia que podemos
chamar de ‘fantasmática’ (Fédida, 1971; Fortes, 2012b).
A dissecação dos cadáveres apagou do corpo a
dimensão do sagrado e do mistério que os envolvia na
representação religiosa do corpo. Antes que o olhar do
homem da ciência sobre ele se fixasse, o corpo era visto
pelo mundo regido pela religião como um ser unificado.
Enquanto a Igreja pôde impedir a dissecação de
cadáveres, o olhar sobre o corpo não era confrontado
com um interior feito de partes, de órgãos, de pedaços.
Era mantida a sua dimensão de unidade, de unificação
religiosa que concebia o corpo como uma unidade. Por-
tanto, o advento da medicina moderna, ocorrendo, se-
gundo Foucault (1980/1998), no final do século XVIII e
no início do século XIX, desvelou o interior do corpo e
o inscreveu no campo da visibilidade.
O corpo interior foi revelado e isso mudou o
olhar que se tinha acerca dele, apagando-se a sua aura de
mistério e invisibilidade e não mais sendo reverenciado
pela sua proximidade e semelhança com Deus. A partir
do momento em que o corpo se torna visível, o olhar
que se tem sobre ele é o de um corpo fragmentado em
partes, em órgãos.
A anatomia clínica criou a visibilidade dos órgãos
internos e, desse modo, mudou a própria concepção de
humano, apresentando o corpo desmembrado e inven-
tariando as suas partes. Pela visão científica, são agora as
partes que produzem o todo.
A dissecação foi uma experiência de desencan-
tamento, apagou o encantamento do corpo sagrado
e dele fez um corpo-cadáver. Como mostra Foucault
(1980/1998), o cadáver passa a ser o paradigma da saú-
de e da doença, pois é o corpo morto que vai indicar a
localização e o estatuto das doenças. Portanto, estamos
diante de um corpo-cadáver destituído da dimensão fan-
tasmática, destituído de desejo. A época iluminista trou-
xe para a ciência o desencantamento do corpo e a sua
desmontagem em várias partes.
É interessante notar que esta transformação do
olhar acerca do corpo não foi um movimento exclusivo
da ciência. Também no domínio da arte assistiu-se à en-
trada do corpo desmembrado. Coli (2010), no livro “O
corpo da liberdade” mostra como a arte vai acompanhar os
rumos da ciência quando o cadáver se insere nas novas
sensibilidades artísticas do final do século XVIII e do
início do século XIX. Há um deslocamento do lugar do
corpo, que se tornou, então, um corpo disposto como
objeto tanto para a ciência como para a arte. Também na
arte assiste-se ao fascínio pelo corpo que se desmembra,
criando-se aquilo que Coli (2010) denomina uma “poé-
tica do fragmento”.
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Essa forma fragmentária do corpo é também a for-
ma com que a psicanálise concebe o corpo. O corpo eró-
geno se constitui por partes e não por uma unidade ou
uma totalidade (Leclaire, 1979/1992). A erogeneidade
não se encontra no todo; a imagem totalizante do corpo
constitui o eu e o narcisismo, mas não é a fonte das ex-
citações erógenas. As fontes da erogeneidade surgem das
partes do corpo, da pele, das membranas, da mucosa, do
que Freud (1905/1972) denomina zonas erógenas, regi-
ões corpóreas que se inscrevem sob o registro da sexuali-
dade perversa polimorfa. A compreensão teórica do ato
automutilatório requer, a nosso ver, conceber a ideia do
corpo enquanto ser fragmentado.
No entanto, se acompanharmos o desenvolvimen-
to teórico de Gauthier (2007), em seu artigo “Automuti-
lação e autoerotismo”, podemos avaliar senão seria uma
concepção de um corpo que, apesar de fragmentário,
não é atravessado pela dimensão autoerótica. Segundo
o autor, os talhos em si mesmo buscam ferir o corpo
nas suas partes, indicando uma ausência de autoerotis-
mo e, ao mesmo tempo, uma impossibilidade de sentir
prazer. O corte se daria no nível da sensorialidade, e não
no do erotismo. Se, por um lado, a adolescente sente
um rebaixamento da tensão interna, isso, no entanto,
se configura como uma sensação que é bem diferente
de prazer. No blog supracitado, outro testemunho é re-
velador desta questão: “Quando eu termino de me cortar,
a angústia depois de um tempo volta, mas vale a pena, pelo
sentimento de alívio, nem que seja somente por 5 minutos”
(Monster, 2012).
O alívio mencionado pela jovem alude, a nosso
ver, à intensidade que advém de uma lógica da agonia e
do desespero, não se tratando, necessariamente, do que
a psicanálise designa como masoquismo. A dor corpo-
ral, aqui, não é uma via de obtenção de prazer, mas é
usada, repetimos, como modo de expressão do desespe-
ro moral. A automutilação não seria uma resultante de
um movimento autoerótico:
Sem o autoerotismo necessário para o cuidado e a
atenção consigo mesmas, sem o recurso de dirigir-se
em direção a um outro, estas jovens se mutilam. É o
único recurso que possuem quando entram em pane,
como exprimem todas estas adolescentes que me fala-
ram de um blackout para descrever e ao mesmo tempo
não descrever suas experiências. A ruptura da ligação
com o outro, o isolamento, distingue estas automutila-
ções “privadas” de outras mutilações que, ao contrário,
têm como função ligar o indivíduo a um grupo cultu-
ral (Gauthier, 2007, p.55).
Também nas pesquisas de Le Breton (2006) en-
contramos a defesa de que não se trata de um script ma-
soquista, mas de um movimento que traduz a tentativa
de domínio das sensações corpóreas:
O sentimento de relaxamento experimentado, e mes-
mo acompanhado de júbilo, liga-se ao alívio produzido
pelo ato após a purgação dos sentimentos. (...) este de-
saparecimento da tensão e a perplexidade de tornar-se
novamente si mesmo induzem a uma fórmula bastante
comum, mas repleta de mal-entendidos. Se muitos au-
tores fazem referência a uma sensação agradável, única,
etc. parecendo evocar cenários sadomasoquistas, nós
nos colocamos em oposição a tal démarche. Ela traduz,
com efeito, a resolução imediata da tensão (Le Breton,
2006, p.3).
Assim, nesta perspectiva, a automutilação seria
vista como um gesto que busca o registro da sensoriali-
dade, mas um gesto que não se inscreve no prazer auto-
erótico, pois os cortes seriam muito mais uma descarga
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de intensas tensões internas e uma via de buscar um con-
torno para o informe corporal mais do que uma abertu-
ra a potencialidades de prazer. Trata-se muito mais de
um ato que visa a encontrar um modo de descarga da
dor psíquica do que uma busca que teria a finalidade do
prazer ou da autodestruição. A erogeneidade foi, aqui,
curto-circuitada pela indiferença experimentada e pelo
predomínio do desalento.
A inegável precariedade psíquica faz com essa
automutilação “privada” revele, no recurso ao ato-dor,
o considerável prejuízo efetivamente experienciado no
campo alteritário. É nesta dimensão de ausência ou va-
zio, rasurada pela indiferença experimentada no imagi-
nário do outro, que a experiência de escuta psicanalítica
pode criar novos contornos e sentidos.
Frente ao ato de automutilação, o analista é con-
vocado a exercitar a não captura do olhar em relação
ao corpo mutilado, mas, sim, à recorrer aos recursos de
uma clínica cuja ética encontra-se pautada na escuta de
um sujeito aprisionado na repetição do mesmo. Ao des-
crever o que sabe sobre o ato de se mutilar, uma jovem
diz: “Eu sei o que é a automutilação, eu me trancava todas as
noites, apagava a luz, ficava no breu” (Monster, 2012).
É neste breu, neste escuro de sentido provindo da
repetição incessante daquilo que é da ordem do sem sen-
tido, que o ato-dor dá vazão àquilo que, desde dentro,
não encontra outra forma de expressão. Sustentada na
transferência, a psicanálise interroga e convida o sujeito
a endereçar sua dor à escuta.
É nessa singular modalidade de convocação à nar-
rativa sobre si mesmo, ou seja, no endereçamento a um
outro, que a acolhe e se recusa a um saber prévio, que as
rasuras na experiência alteritária podem encontrar outra
vicissitude. Desta forma, o ato-dor, como característico
da situação de automutilação na adolescência, pode ce-
der espaço à criação da possibilidade de o sujeito existir
em presença de outro e em presença de si mesmo.
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